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De Cluj a Barbacena Tribuna Învãtãmânrului matéria sobre meu avô Emeric Marcier por Radu Lilea – Débora Marcier

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Na edição de setembro da revista “Tribuna Învățământului”, editada na Romênia, o jornalista Radu Lilea faz uma longa matéria sobre o artista Emeric Marcier (1916-1990). São oito páginas dedicadas ao artista que deixou seu país natal em plena II Guerra Mundial e veio para o Brasil criando uma obra pictórica única e fazendo de Barbacena seu porto seguro mesmo sendo um homem que, segundo suas próprias palavras, foi “deportado para a vida”.

DE CLUJ A BARBACENA, O BRASIL DE EMERIC MARCIER
Por Radu Lilea

(Tradução gentilmente feita por Mihai Cauli)

Tarde de janeiro no Rio de Janeiro, com os amigos. Visitei todas as exposições do Museu de Arte Moderna, meio que correndo, mas estou pensando em voltar sozinho. Paro na livraria no saguão – se eu também comprar livros aqui, quando eu voltar para a Romênia minha bagagem vai ultrapassar o recorde de peso das viagens anteriores. Abro o primeiro volume que cai na minha mão, “Deportado para a vida. Autobiografia”, e leio a apresentação na aba: “O romeno Emeric Marcier nasceu em 21 de novembro de 1916, na Transilvânia, na cidade de Cluj”. Não sei quem é Emeric Marcier. Compro o livro com o sentimento e a impaciência de uma grande descoberta.

Stop-frame: “Um dos mais importantes artistas da imigração [brasileira, n.a.) foi o romeno Emeric Marcier”. É o depoimento que abre um documentário da série Canto dos Exilados, realizado por Leonardo Dourado e Kristina Michailles e veiculado em 2016 pelo canal brasileiro Arte 1. As palavras são do jornalista e escritor Alberto Dines, que, aliás, também escreveu o prefácio do livro de Marcier. Os 17 minutos e meio do documentário são como uma janela aberta para um novo universo, que prevejo imenso.

Não há muitas referências bibliográficas em romeno sobre Marcier, e as fontes em português não são facilmente acessíveis.1 É por isso que, ao tentar ilustrar sua biografia e pesquisa artística neste artigo, muitas vezes recorri a citações; mesmo assim, com todas as vozes que anexei aos testemunhos extraídos da autobiografia do pintor, o presente texto é uma janela muito estreita para o mundo (ou mundos) de Marcier.

Livro com dedicatória de Ana Catarina Marcier para sua filha Débora Marcier

AS PRIMEIRAS PEREGRINAÇÕES EUROPEIAS

Seis páginas contêm o capítulo dedicado por Marcier aos vinte anos que passou na Romênia. Ele faz algumas anotações fugazes sobre sua família, sua terra natal, Cluj, seu início artístico. Estas páginas parecem poucas para o leitor romeno, mas as coisas realmente significativas sobre a relação de Marcier com a cultura romena serão registradas no resto de sua autobiografia e em algumas de suas entrevistas. Além dos dados biográficos neste primeiro capítulo, o importante é a consciência do destino que se configura. Nessa chave Marcier escreve suas memórias, com a mesma consciência que ele seguiu em sua vocação. Seu destino está sob o signo da arte e da fé, mas também sob aquele sinistro da guerra, cujo espectro aparece desde o início. ”[…] Em 21 de novembro de 1916, na noite em que nasci, minha mãe compareceu uma apresentação teatral, que foi interrompida para anunciar a morte de Franz Josef, um dos poderosos autocratas da Europa em guerra […]. Depois de um reinado de mais de meio século, essa morte prenunciava o colapso da Europa, o fim da chamada belle époque, cena tão importante na pintura moderna ”.

Também neste capítulo aprendemos sobre o primeiro desenraizamento de Marcier, sua mudança para Bucareste; viajar de uma cidade para outra, em diferentes países e em diferentes continentes, seria uma das constantes de sua vida e carreira, em que a condição de exilado não é uma simples metáfora artística. Nascido em uma família judia (o nome verdadeiro do pintor é Imre Racz, o pseudônimo Marcier um anagrama), ele se refugiará permanentemente da Segunda Guerra Mundial e do antissemitismo, chegando por último ao Brasil.

Em 1936 estava em Milão, na Academia de Belas Artes de Brera, embora sonhasse com a Paris de Brâncuşi. O encontro com a obra de Giotto e Piero della Francesca teria um papel formativo mais profundo para ele do que o período de estudos parisiense, cidade à qual logo chegaria. [Marcier 2004, p. 22] Em Milão, ele concluiu seu curso de história da arte com uma dissertação sobre Picasso; havia visto Guernica na Feira Mundial de 1937.

Deixa a Itália fascista por Paris, onde continuou seus estudos artísticos. A obra de Picasso e, posteriormente, os surrealistas o afastam do academismo estéril. Ele conhece Victor Brauner, Gellu Naum e Gherasim Luca. Na bagagem carrega o volume dedicado ao surrealismo editado e prefaciado por Herbert Read.

Entre 1939 e 1940 esteve em Portugal; embora a sua estada em Lisboa também fosse curta, Marcier consegue fazer amigos no mundo literário e artístico da capital portuguesa. No mesmo ano, embarcando no transatlântico Conte Grande, deixou a Europa, o “continente amaldiçoado” [Marcier, 2004, p. 67], que sucumbiu à pressão implacável do nazismo. A nova barbárie que o século XX desencadeou no mundo marcaria profundamente a arte de Marcier e moldaria sua expressão trágica. O próximo destino será Rio de Janeiro.

UMA NOITE NA PRAIA DE ICARAÍ

A viagem pela Europa foi uma boa preparação para a experiência sul-americana de Marcier. Como a maioria dos refugiados do Velho Continente, o artista se referiu ao Brasil como um refúgio temporário. Na verdade, muitos dos refugiados voltariam para a Europa após a guerra.

As cartas de recomendação que lhe foram confiadas pelo escritor português José Osório de Oliveira, sua cultura e seu temperamento afável ajudam-no a integrar-se facilmente na vida cultural da cidade do Rio de Janeiro, onde faz amizade com Mário de Andrade, José Lins do Rego, Jorge de Lima, Aníbal Machado e muitos representantes da elite cultural, reencontrando também Mário Schenberg, que conheceu em Roma. O poeta Deolindo Tavares é o primeiro brasileiro a quem Marcier mostra as gouaches feitas em Lisboa.

Nos primeiros meses no Rio de Janeiro, não viu perspectiva de vender seus trabalhos. A cidade não se parece com os grandes centros artísticos europeus: não se vive da arte, não há, de fato, um mercado dedicado, com comerciantes, galerias, compradores. Os artistas aqui ganham a vida como funcionários públicos, fazem parte da burguesia e oferecem suas criações de presente. Os poucos compradores vêm das fileiras estrangeiras da então capital da República.

A primeira exposição pessoal de Marcier é o resultado de uma disputa de circunstâncias; o pintor Alberto Guignard cancela a exposição agendada no Salão dos Artistas Brasileiros do Palace Hotel devido a desentendimento com a Associação Brasileira de Artistas Plásticos sobre uma de suas pinturas. Substituindo-o, Marcier exibirá uma série de têmperas trazidas da Europa e algumas obras que já havia começado a realizar no curto período de permanência no Rio de Janeiro. Assim, apenas dois meses após sua chegada, em 20 de junho de 1940, sem catálogo e com preparativos mínimos, Marcier abre sua primeira exposição pessoal. [Marcier, 2004, pp. 95-97]

Depois de quase meio século, entre 15 de dezembro de 1987 e 15 de janeiro de 1988, as pinturas de Marcier e de Guignard estarão lado a lado expostas numa outra galeria de arte carioca que temo nome do romeno Jean Boghici2, uma das figuras mais interessantes de nossa diáspora sul-americana, que, em meados da década de 1960, teria um papel importante no apoio a jovens artistas brasileiros e à Nova Representação Figurativa [Calirman, 2012, p.63] .
Até 1944, Marcier terá mais duas individuais no Rio de Janeiro, que, aliás, continuará sendo sua cidade preferida para exposições.

Marcier mora em um bairro pitoresco do Rio de Janeiro, Santa Teresa, cujas ruas inclinadas abrem esplêndidas vistas urbanas. Ainda hoje, apesar das enormes transformações que a cidade sofreu ao longo das décadas, ainda se pode admirar em Santa Teresa casas cujos níveis descem seguindo ladeiras, apoiadas em pilares, e vilas que, do outro lado da rua sobem a ladeira, cercadas de jardins guardados por altos muros de pedra.

Em Santa Teresa, Marcier começa a pintar pinturas com temática religiosa: crucifixos, nos quais às vezes apareciam detalhes inusitados, a parábola dos cegos etc. Ele já é um amigo próximo dos círculos intelectuais católicos.
Após uma visão noturna mística na praia de Icaraí, em Niterói, ele decide se converter ao cristianismo. “Que coisa incompreensível: eu, o agnóstico, um judeu que de repente sentiu o chamado, o mesmo chamado que os apóstolos sentiram!” [Marcier, 2004, p. 144] É o início de uma jornada que transformará Marcier em um dos mais importantes representantes da pintura religiosa no Brasil.

Barroco mineiro e o pequeno paraíso chamado Sítio Santana

A Marcier se propõe ilustrar uma edição especial da influente revista O Cruzeiro com panoramas do Estado de Minas Gerais, dos seus assentamentos coloniais. Haviam sido fundados e desenvolvidos no final do século XVII e durante o século XVIII a partir da descoberta de importantes jazidas de metais e pedras preciosas, o que gerou uma verdadeira corrida ao ouro e às joias. A riqueza alimentou uma explosão do barroco, expresso nas igrejas, nos edifícios administrativos e residências erguidas naquela época.

Além desse tesouro arquitetônico, Marcier se maravilha ao descobrir o interior brasileiro: sua geografia e a luz filtrada e suave lembram a Transilvânia, mostrando ser um ambiente perfeito para pintura ao ar livre. As paisagens de Marcier são sempre feitas na natureza, sejam elas européias, de Santa Teresa ou de Minas Gerais. Conquistado pelo pitoresco da região, Marcier (casado e já pai de quatro filhos) muda-se para Barbacena.

“Morei primeiro no centro, por acaso na casa onde morava o ministro das Finanças da República de Weimar, Hugo Simon, que entregou as chaves a meu pai”, diz Matias Francisco Racz Marcier3. “Naquela casa, em março de 1948, nasceu meu irmão Tobias Marcier, um grande artista, que morreu prematuramente em 1982 no Rio de Janeiro. Minha mãe não gostou muito da cidade e insistiu para que nos mudássemos para uma casa de campo. Dito e feito.” Nasce um recanto edênico, o Sítio Santana, uma propriedade que Emeric Marcier organiza de acordo com seu gosto, onde constrói a oficina dos seus sonhos. Seu filho Matias lembra: “No meio desta família, junto com meus seis irmãos e rodeado de vegetação e animais, vivi a infância mais feliz que se possa imaginar. Tínhamos uma linda casa com afrescos, belos móveis e um conjunto de estátuas de santos barrocos. A casa era frequentada por intelectuais cariocas, paulistas e mineiros. Os monges dominicanos estavam constantemente presentes. Cuidávamos também da agricultura, produzíamos praticamente tudo de que precisávamos ”. Nesse clima idílico, ouviam-se acordes de música erudita e às vezes a voz de Maria Tănase e do sambista Ataulfo Alves.

Em 1946, Marcier iniciou sua carreira como muralista, trabalhando com pintura do interior da Capela da Juventude Operária Católica em Mauá, Estado de São Paulo; ele completaria o trabalho no ano seguinte. Temas do Velho Testamento e apocalípticos são transpostos para o afresco com um forte estilo modernista. Os ecos da Segunda Guerra Mundial marcam presença no afresco da Torre de Babel sobrevoada por aviões (Baptista, 2000, p 61).
Até 1965, Marcier decorou treze edifícios brasileiros no Rio de Janeiro, Petrópolis, Juiz de Fora, Cataguases, Muriaé, Belo Horizonte e uma residência em Zurique com representações principalmente religiosas ou mitológicas.

No Brasil, expôs em São Paulo, Belo Horizonte, Barbacena e, mais frequentemente, no Rio de Janeiro, onde Jean Boghici organizou duas exposições individuais, em 1961 e 1966, na Galeria Relevo, no bairro de Copacabana. No exterior, depois da guerra, paisagens, obras religiosas e retratistas são apresentadas em exposições individuais em Paris (1957), Lisboa (1965), Roma (1966), Tóquio (1967) e coletivos – em Buenos Aires, Lima, Santiago (1957) , Cidade do México (1958), Paris, Lisboa, Praga (1965) e Salzburgo (1966) etc.

A GRANDE EXPOSIÇÃO NO ATENEU ROMENO

Em 16 de junho de 1963, o cargueiro Dobrogea partiu do porto de Constanta com destino à América do Sul. A bordo estava o poeta Toma George Maiorescu, então com 35 anos. A viagem que iniciou seria contada no livro Zeii desculţi, publicado em 1966, um volume com uma estrutura muito interessante, constituído por um conjunto de reportagens que ainda conservam o seu encanto, apesar de algumas ingenuidades, erros ou notas tendenciosas. Mas também contribuem à sua maneira para os prazeres de detetive do pesquisador de hoje.

Em 1963, o Brasil era presidido por João Goulart; o país vivia um período de turbulência política que, embora não fosse novidade, logo levaria ao golpe militar e à instauração da ditadura em 1º de abril de 1964. O escritor romeno captou os momentos anteriores a essa dramática evolução e não hesitou em registrar a luta ideológica entre a esquerda e as correntes conservadoras, disputa que abriu falhas doutrinárias difíceis de superar.

Maiorescu tinha visto um exemplar da edição da revista O Cruzeiro ilustrado por Marcier. “Olhando por ele, algumas reproduções chamaram minha atenção. Essas pinturas realmente me hipnotizaram! As cores vivas e as linhas ligeiramente hieratizadas dos rostos me levaram a algum lugar, muito longe, através do norte da Moldávia, a Suceviţa ou Voroneţ. ” [Maiorescu, 1966, p. 164] Chegando ao Brasil, Maiorescu visita as cidades do Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e segue para Barbacena para se encontrar com o pintor.

Eu o conheci no cenário idílico do Sítio Santana: “Abro um portão de madeira e acordo em outro mundo … Laranjas e limões, figos, azeitonas, abacates4, eucaliptos, abetos … Aqui estão peras, pêssegos, uma plantação de cafeeiros, outra de bananeiras … casuarina, um aglomerado de mimosas da Côte d’Azur … A mão de jardineiro e, ao mesmo tempo, de artista, milagrosamente transformou esta colina num verdadeiro Éden. Um silêncio denso não perturbado apenas pelo canto dos pássaros, o ar forte da montanha. ” [Maiorescu, 1966, p. 169]

O autor de Zeii desculţi provavelmente oferece o primeiro registro biográfico de Marcier em romeno, honesto, enfatizando os laços espirituais que manteve com seu país natal, relatando a visita do pintor em 1961 à Romênia comunista para voltar a ver sua família, altura em que obviamente notou as “espantosas” transformações socio-econômicas (o epíteto era obrigatório, registrado no relatório do Maiorescu). Mas o leitor atento também observaria a indicação de que a visita não foi tão livre e despreocupada: o pintor “não viu nenhuma exposição, não encontrou nenhum dos seus velhos amigos, era turista, teve que seguir o roteiro da ONT”. [Maiorescu, 1966, pp. 176-177]
No dia em que Maiorescu passa no Sítio Santana, surge o ambicioso plano de organizar a primeira exposição de Marcier (e a única até agora) na Romênia. “Conversando, chegou-se à idéia da grande exposição […] realizada com duplo patrocínio: Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores da República Federal do Brasil, n.a.) e o Estado romeno”, lembra Matas Francisco Racz Marcier.

A exposição foi inaugurada cinco anos depois, em 4 de novembro de 1968, no Ateneu Romeno, na presença do artista. Foi uma nova oportunidade de observar os sinais de falta de liberdade no país de origem, presentes em todos os lugares. Em sua autobiografia, ele nota com ironia e amargura que, mais de duas décadas após a Segunda Guerra Mundial, aquela Romênia que os comunistas declararam ter sido reconstruída sobre os alicerces da ideia de trabalho e de fraternidade internacional manteve seus cidadãos cativos, negando lhes o direito de viajar e se expressar livremente. “Mas mesmo assim o crítico mais famoso veio visitar-me na residência, ousou aceitar o meu convite. Falamos sobre Van Gogh e Ţuculescu como se fôssemos conspiradores, cientes de que não há fronteiras políticas nas artes ”[Marcier, 2004, p. 354].

A exposição no Ateneu consistiu em uma generosa seleção de obras, representativas das preocupações de Marcier; nas paredes, paisagens mineiras, pinturas religiosas e retratos. A organização do evento pressupôs uma colaboração inusitada entre as autoridades da Romênia socialista e as do Brasil, já sob a ditadura militar, regimes que, no fundo, mantinham posições ideológicas inconciliáveis. Mais tarde, o pintor notaria secamente que “as várias formas de opressão acabam se acomodando”. [Marcier, 2004, p. 352] Hoje, olhando as coisas com o distanciamento proporcionado pela passagem de mais de meio século do evento, Matias Francisco Racz Marcier, filho do pintor, diz que “a história da exposição de Bucareste é muito interessante e de alguma forma mina a ideia de que a política dita as artes ”, acrescentando que o evento teve grande repercussão na imprensa romena da época5.

UM NOVO EXÍLIO

Em final de 1968, pouco mais de um mês após a abertura da exposição no Ateneu, no dia 13 de dezembro, o presidente brasileiro Artur da Costa e Silva, representante da linha mais dura e nacionalista do exército [Fausto, 2015, p. 406], assinou o Ato Institucional nº 5 (AI5) que lhe conferia imensos poderes, fortalecia a censura, proíbia comícios não autorizados e suspendia o habeas corpus. O AI5 fazia parte de um conjunto de instrumentos legislativos que os círculos militares mais radicais criam para embasar a repressão aos oponentes numa estrutura jurídica que simula a legalidade em pleno arbítrio [Schwarcz e Starling, 2015, p.455-456]. A essa altura, Marcier havia deixado a Romênia, estava em Antuérpia; décadas depois, ele escreveria amargamente em sua autobiografia: “Depois de alguns dias passados em um país dominado pelo medo [Romênia, n.a.], o terror estabelecido agora esperava por mim.” [Marcier, 2004, pp. 356]

Muitos dos refugiados europeus com que Marcier fez amizade em seus primeiros anos no Brasil voltaram para a Europa imediatamente após a guerra. Ele permaneceu no país sul-americano não só porque havia formado uma família, da qual o Brasil era sua casa, mas também porque lá encontrou um novo propósito artístico. Sua pintura sofreu uma transformação radical [Marcier, 2004, p 224], descobrindo um catolicismo de vocação patética e o patrimônio cultural do Brasil profundo, com o barroco colonial das joias arquitetônicas de Ouro Preto, Congonhas, Sabará, Mariana, São João del Rey, Barbacena, Tiradentes.

Marcier foi para o exílio em Paris por um tempo e viajou extensivamente pela Europa. Faleceu na capital francesa, no primeiro dia de outono de 1990, aos 74 anos. Seu último grande projeto foi escrever suas memórias, publicadas postumamente.

PENSANDO EM UMA NOVA RETROSPECTIVA

Chegamos ao momento dos juízos de valor e, como antes, recorro à estratégia simplista, talvez, de fornecer indicações bibliográficas e opiniões de outros especialistas, estratégia que poderia ser mais proveitosa para o futuro pesquisador da obra e da biografia de Marcier.

O nativo de Cluj tornou-se um dos “grandes artistas brasileiros” (José Roberto Teixeira Leite), um artista com vocação para o patético a partir da “contemplação mágica da realidade” (Petru Cormarnescu), animado pela consciência dramática da condição humana e visão crítica do mundo moderno ”(Ferreira Gullar) [Teixeira Leite, 1968; Marcier, 1982; Gullar, 1987], infelizmente se tornou novamente um nome quase desconhecido na Romênia nas décadas que se seguiram à exposição no Ateneu.

Na verdade, a obra de Marcier passou e continua passando por um cone de sombra no Brasil, principalmente, provavelmente, pelo seu desligamento das ideias da arte contemporânea. Após o período de ligação à estética modernista e surrealista, as influências extremamente variadas – entre elas as da pintura mural medieval romena, do início do Renascimento italiano, de Grünewald, EI Greco, Aleijadinho, Rouault, etc. – optou por abrir espaço para uma visão profundamente pessoal, o que permitiu a Marcier criar um registro estilístico abrangente, adaptado a várias técnicas e temas. O pintor não buscou soluções estéticas nas propostas dos movimentos artísticos do pós-guerra, cuja imensa influência se exerceu no Brasil, especialmente por meio da Bienal de São Paulo. Ele reconheceu alguns dos méritos da arte abstrata, por exemplo, mas rejeitou-a como uma “manifestação de uma civilização desumana”, enquanto na Pop Art ele viu um retorno ao figurativo mais banal e vulgar. [Maiorescu, 2002 p. 482] Essa dessincronização deliberada e obstinada colocará Marcier na galeria dos mestres brasileiros do século XX, mas fora de modismos.

Até recentemente, nenhuma obra com a assinatura de Marcier foi exibida nas coleções públicas romenas. Mas em novembro de 2019, graças a uma doação feita pelo arquiteto Matias Francisco Racz Marcier, três obras fazem parte do Museu de Arte de Cluj-Napoca. É um autorretrato, uma aquarela Place des Vosges e o Garroteado (Enforcado)6.
Antes da doação, o nome de Marcier era conhecido apenas em círculos de especialistas em história da arte e pesquisadores interessados em estudos culturais latino-americanos, como os do Centro Cultural “Casa do Brasil” em Cluj. As três pinturas “têm um valor reconhecido mundialmente, que as inscreve na seção de Arte Universal do patrimônio (do museu, n.a.), e um valor intercultural mais especial”, que conecta o ethos da vanguarda histórica na Romênia interbélica. Ao legado da grande arte europeia, recebido principalmente através dos estudos e viagens de Marcier, afirma o historiador Lucian Nastasã-Kovács7, diretor do museu. Do ponto de vista romeno, “os primórdios de Emeric Marcier devem estar relacionados às sugestões culturais oriundas do ambiente de vanguarda, cada vez mais ativo no país a partir de 1922, quando artistas importantes como Mareei Iancu, Max Herman Maxy, Hans Mattis -Teutsch , Corneliu Michãilescu ou Milita Petraşcu, representados com obras significativas no património do nosso museu, lançaram as bases para a continuação da vanguarda histórica internacional no plano local ”.

No entanto, seria um erro colocar Emeric Marcier nesse campo por conveniência e indiscrição, uma vez que “suas preocupações subsequentes demonstram uma excelente filtragem e hibridização das sugestões da modernidade radical com referências pronunciadas e predominantemente religiosas”, enfatiza o historiador, referindo-se às influências extraídas da obra de El Greco, Andrea Mantegna, Piero della Francesca ou Giotto e à emoção mística,“ catalisador essencial para uma visão extremamente original dos artistas, como declarou Emeric Marcier ao brasileiro escritor Lúcio Cardoso: “Tornando-me cristão, pude finalmente assumir a condição de judeu”.
As obras em Cluj podem ser vistas como um passo importante para a recuperação de Marcier, na Romênia. Cinco décadas após o evento no Ateneu Romeno, não acho que a ideia de uma exposição de Marcier em Bucareste ou Cluj seja arriscada, especialmente porque os obstáculos ideológicos desapareceram.

1 Este estudo seria impossível sem o inventário imagético e documental colocado à disposição de forma tão generosa pelo arquiteto Matias Francisco Racz Marcier, filho do pintor, bem como sem as inúmeras contribuições que me ofereceu, com infinita paciência. A pesquisadora Isabel Richter me indicou fontes bibliográficas valiosas; ele nos fornecerá um estudo muito detalhado de Emeric Marcier, desenvolvido dentro do programa “Temporalidades do Futuro na América Latina” do Grupo Alemão-Mexicano de Treinamento em Pesquisa Internacional. Trata-se da pesquisa para doutoramento intitulada O Futuro da Memória: O Artista de Vanguarda Emeric Marcier como Desafio de Pesquisa de Memória no Brasil. Uma Contribuição para o Recepção de Arte Interreligiosa no Exílio Latino-Americano. O historiador Lucian Nastasã-Kovãcs, diretor do Museu de Arte de Cl uj-Napoca, forneceu-me as reproduções das três obras assinadas por Emeric Marcier nas quais a instituição de Cluj-Napoca me ofereceu um ponto de vista muito documentado sobre a importância do trabalho do artista no contexto romeno.

2 Jean Boghici (1928 – 2015), colecionador e marchand de arte

3 Aqui e ulteriormente, extraido do questionário completado em 27 de julho de 2021

4 Na verdade, abacateiro, árvore que produz o abacate

5 Espero que os historiadores que se aprofundarem no estudo da biografia de Marcier e das relações diplomáticas entre a Romênia e o Brasil pesquisem os arquivos institucionais e as coleções de periódicos tanto para esclarecer a gênese desta exposição quanto para avaliar com precisão seu impacto na época, inegavelmente importante, mas que não garantiu ao pintor uma fama duradoura no país.

6 Garroteado é um protesto contra a execução do militante anarquista catalão Salvador Puig Antich em 1974, o que rejeita a ideia simplista de que, “Marcier pinta o Cristo e temas como Pietá, o suicídio de Judas, diversos santos pura e simplesmente através da perspectiva do católico fervoroso” diz Matias Francisco Racz Marcier. “Através dessa obra e de outras, como a Pietá de Montpamasse (com águias) e São Sebastião do Rio de Janeiro (que se refere à tortura com choques elétricos), denunciou as atrocidades da época, na maioria das vezes criticando as forças fascistas atuantes naquela época no Brasil ”.

7 Aqui e ulteriormente, extraído do questionário completado em 29 de julho de 2021

BIBLIOGRAFIA:

■ Baptista, Anna Paola P. (2000 – „Paraiso e inferno na Terra. Ecos da Segunda Guerra Mundial na Pintura Religiosa Brasileira, 1940-1950 “in História Social, 7, pp. 49-65
■ Calirman, Claudia., 2012 – Arte Brasileira sob a Ditadura. Antonio Manuel, Artur Barrio e Cildo Meireles, Duke University Press, Durhams London
■ Cerqueira Filho, llton José de., 2017 – interligação entre pintura, vida e religião: o mural sagrado moderno de Emeric Marcier “, em Mosaic, vol. 8, no. 13
■ Fausto, Boris., 2015 – Historia do Brasil, EdUsp, São Paulo
■ Gheorghiu, Vai., 1966 – „Barbacena – Voronet.
Fale com o pintor brasileiro Emeric Marcier “, 9 de abril de 1966
■ Gullar, Ferreira., 1987 – Guignard. Marcier, catálogo da exposição, Rio de Janeiro
■ Maiorescu, Toma George., 1966 – Zeii desculţi (Os Deuses Descalços), 199 dias e noites em sequências intercontinentais, Editura Tineretului, Bucareste
■ Maiorescu, Toma George., 2002 – Conversas em Crepúsculo, Livro Romeno, Bucareste
■ Marcier, Emeric., 1982. – Paisagens, catálogo de exposição, Galeria Jean Boghici, Rio de Janeiro
■ Marcier, Emeric., 2004 – Deportado para a vida. Autobiografia, Francisco Alves, Rio de Janeiro
■ O Cruzeiro. Revista Semanal Ilustrada, edição especial dedicada às cidades históricas de Minas Gerais, 4 de abril de 1942
■ Schwarcz, LiliaM. e Starling, Heloisa M., 2015 – Brasil: uma biografia, Companhia das Letras, São Paulo
■ Teixeira Leite, José Roberto., 1968 – Emeric Marcier, catálogo da exposição, Bucareste

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Dia do Médico – Débora Marcier

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Do Dr. Paulo Maia Lopes: “SALUTAT VOS LUCAS, MEDICUS CARISSIMUS”, diz São Paulo na Epístola aos Colossenses (IV, 4). “Saúda-vos o caríssimo médico Lucas”. Por este trecho, ficamos sabendo que São Lucas, o presumido autor do Evangelho que leva seu nome e também dos “Atos dos Apóstolos”, exercia a medicina e era grande amigo de Paulo de Tarso, o pioneiro divulgador do cristianismo fora da Judéia.

No registro, o Dr. Flávio Martins e sua esposa Cristina Mazoni Silva Martins, ele Presidente da Associação Médica de Barbacena na noite de autógrafos do livro que resume a memória profissional e afetiva de um dos decanos da Medicina em Barbacena, Dr. Pedro de Lima Martins Teixeira. O livro “Pequenas histórias de uma longa vida”, foi lançado em um encontro restrito a parentes e amigos na sede da AMBA, no último dia 16 de outubro.

Com informações do Centro de Memória Belisário Pena – Edson Brandão / Idinando Borges

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